Do quintal para o mundo

Solano Ribeiro é daquelas mentes brilhantes que fazem a diferença e servem de farol para muita gente.  Foi ele quem idealizou e executou os festivais de música da década de 1960 e viu a história sendo escrita e cantada para todo o Brasil. Bastava uma fresta na coxia dos teatros, onde aconteciam os eventos daquela época, para presenciar a potencia da voz de Elis Regina, a genialidade de Chico Buarque e a alegria de Caetano Veloso. Ele viu a disparada de Jair Rodrigues e muitos outros talentos como Geraldo Vandré, Edu Lobo, Nara Leão e Martinho da Vila sendo abraçados pelo público.  Hoje, mesmo com uma “onda” criativa de gosto duvidoso, ele faz uma avaliação positiva da boa música produzida no Brasil. Nessa entrevista concedida ao Fenac ele falou das potencialidades que pipocam pelo país e da oportunidade que os novos taletos têm ao participarem do Festival Nacional da Canção. Com a sensibilidade de quem fez muita gente fazer sucesso, Solano ainda deu uma dica para quem busca atingir o grande público: “Fale de seu quintal e estará falando  para o mundo”.

Qual avaliação você faz do momento atual da música brasileira?

O momento atual da música popular do Brasil encontra dois cenários. De um lado, a produção independente que mostra imenso potencial em quantidade, qualidade e diversidade por estar disseminada por todo o país e de outro a música comercial que ocupa todos os espaços da mídia e cujo objetivo e fazer dinheiro fácil.

Como era ser idealizador e executor dos grandes festivais do Brasil?

Os festivais não tinham segredo. Era apresentar novas músicas de novos compositores por novos intérpretes escolhidos a partir de critérios estabelecidos segundo o talento e qualidade. Hoje os festivais não são apresentados pelas grandes redes de televisão, o que torna difícil que o grande público conheça novos talentos e que sirvam de referência aos iniciantes. Além do que, existem mais programas de calouros apresentando intérpretes cantando do que a produção impõe.

Depois de tantos anos, o que diria de um Festival que ainda sobrevive como o Festival Nacional da Canção?

Acho O FENAC iniciativa importante que obedece a critérios corretos. Creio que não consegue maior relevância por não ser apresentado pela televisão.

O Fenac é uma oportunidade para músicos e compositores mostrar seu trabalho?

Sim, para músicos cantores e compositores é oportunidade de além de apresentar seus trabalhos, conhecer e conviver com quem também busca seu caminho.

Qual o conselho você daria para os músicos de qualidade e que não conseguem espaço na mídia?

Músicos de hoje têm que continuar seu trabalho pessoal visando conseguir através dele expressar sua verdade. Caberá à mídia e seus responsáveis sentir que é produto de grande potencial.

Se fosse idealizar um festival novamente, como seria?

O tempo passou, as coisas se transformaram com a Internet que abriu espaço novo e infinito. Acontece que poucos são exemplos de concentração de audiência em função da proliferação da oferta. O formato que introduz no Brasil, que foi responsável pela revolução na música popular com a criação da MPB, assim como os artistas revelados envelheceu. Eu faria evento mais dinâmico e interativo. Mas isso é outro capítulo. Hoje apresento pela Rádio Cultura Brasil e pela Cultura FM o programa “Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil”, totalmente voltado para a produção independente. É um grão de areia num oceano, mas vale lembrar que o movimento que resultou nos grandes festivais começou no Teatro de Arena de São Paulo que comportava 150 espectadores.

Qual recado você deixa para os músicos e artistas do nosso país?

Que aqueles que buscam espaço façam seu trabalho segundo seu talento e raízes culturais. Vale lembrar daquela frase de importante escritor russo: “Fale de seu quintal e estará falando  para o mundo”.

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